segunda-feira, 8 de junho de 2009

Os 228 da Air France

No decorrer da última semana temos sido bombardeados com informações de toda ordem a respeito do acidente do Air France A447. A imprensa faz seu papel ao noticiar qualquer dado novo, mesmo que na prática, tais dados pareçam irrelevantes.

Ao debruçar-me sobre o tema, encontrei um aspecto de caráter psico-social que até então não consegui perceber alguém que o tenha abordado.

Até sexta-feira dia 06/06, não havia corpos, não havia destroços. Havia apenas o nada, o não-saber, a não-informação. Sob este prisma, percebo que a comoção arrefece. O senso comum não sofre de forma clara. É claro que sentimos muito. Mas, tal sentimento, nem de perto nos atinge avassaladoramente, como os corpos carbonizados do vôo Tam Porto Alegre-Congonhas.

Lembro-me bem daquele dia. Estávamos todos à frente da Tv sofrendo solidariamente aos parentes das vítimas. No caso do Air France, os próprios parentes se negavam a admitir a morte dos seus. Isso tudo, como já disse antes, motivado pela incerteza provocada pela falta de corpos. Como diz a frase apostólica, precisamos "ver para crer".

Nossa condição humana nos torna incapaz de aceitar a morte de forma natural. Nunca estaremos prontos para perder nossos amores, pais e, quem dirá, nossos filhos. Ao contrário do meio  natural, não procriaremos no próximo verão, seguindo o instinto animal. A construção idealista de um ser superior, onipresente, onisciente e infalível, está ligada diretamente a nossa necessidade de cuidado em relação àqueles que se foram.Buscamos eternamente a felicidade, a satisfação e o prazer. Quando morre alguém que amamos, esses sentimentos se tornam inalcançáveis por um tempo.

Já perdi muitas pessoas. Avós, tios, amigos, um irmão. Nunca foi fácil. Todos tinham um lugar em meu coração. A dor aos poucos abranda, mas convenhamos, é tão triste ter a certeza que nunca mais vou vê-los, que entendo o fio de esperança que carregam os parentes das pessoas perdidas num oceano de incerteza.

Hoje, segunda-feira, os corpos emergem no Atlântico. É triste...

Até a próxima.

Ricardo

 

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